
Maria Severa - Fernanda Maria
MARIA SEVERA
Num beco da Mouraria
onde a alegria do sol vem,
morreu Maria Severa...
Sabem quem era?
Talvez ninguém!...
Uma voz sentida e quente
que hoje à terra disse adeus,
voz sentida e voz ausente
mas que vive eternamente
dentro em nós e junto a Deus
além nos céus...
Bem longe onde ao luar
o azul tem mais luz
eu vejo-a a rezar
aos pés duma cruz;
guitarras trinai
viradas pró céu,
fadistas chorai
porque ela morreu...
Caíu a noite na viela
quando o olhar dela
deixou de olhar;
partiu pra sempre vencida
deixando a vida
que a fez chorar...
Deixa um filho idolatrado
que outro afecto igual não tem;
chama-se ele o triste Fado,
que vai ser desse enjeitado
que perdeu o maior bem,
o amor de mãe...
Bem longe onde ao luar
o azul tem mais luz
eu vejo-a a rezar
aos pés duma cruz;
guitarras trinai
viradas pró céu,
fadistas chorai
porque ela morreu...
Maria Severa!...
Segundo rápida e genérica consulta, Maria Severa, mítica intérprete de Fado, terá nascido em 1820, em dia e mês indeterminados, no bairro da Mouraria, em Lisboa. Era filha de Manuel Severo e de Ana Gerturdes. Sua mãe, conhecida pela alcunha de «A Barbuda», por ser assaz peluda de cara, tinha e explorava uma taberna. Consta que era uma prostituta elegante e graciosa que impressionava a cantar Fado entre a estúrdia da Rua do Capelão, tendo tido diversos amantes, entre os quais se distinguiu o Conde de Vimioso, Dom Francisco de Paula Portugal e Castro, seduzido pela forma como Severa cantava e tocava guitarra. Apenas com 26 anos de idade, Severa morreu tuberculosa a 30 de Novembro de 1836 e foi sepultada numa vala comum no cemitério do Alto de São João.
Que espécie de guitarra dedilharia a Severa?
Registo de Casamento de Manuel Severo e de Ana Gertrudes, Freguesia de Santa Cruz, Concelho de Santarém, 1815
Registo de Baptismo de Maria Severa Onofriana, Freguesia dos Anjos, concelho de Lisboa, 1820
Registo de Óbito de Maria Severa Onofriana, Freguesia do Socorro, Concelho de Lisboa, 1846